Mamãe estava dando um cochilo após o almoço e eu estava ao seu lado era dia 21, quando de repente ela fez hum.
__ O que foi mamãe, perguntei
__ Sabe quem esteve aqui agora? respondeu ela.
__ Ninguém mamãe, falei
__Teve sim, minha mãe veio me buscar e eu falei pra ela que queria vê a formatura de Fernando ( meu irmão),mas ela falou não, que eu teria que ir agora. Eu acho minha filha que irei morrer esse mês e é uma coincidência, hoje é o aniversário da morte de mamãe, inclusive quando ela morreu eu tinha dois anos de idade, falou mamãe e Deus é testemunha que não estou acrescentando nem tão pouco diminuindo as palavras ditas por ela.
__ Que besteira mamãe, a senhora sonhou falei.
__ Não Inajá, eu vi, respondeu ela.
Corri para a barraca e contei tudo a papai e ele falou: Besteira Inajá tua mãe tá ficando doida, e eu respondi: é verdade papai ela falou que viu a mãe dela. Daí mamãe sempre lendo a Bíblia e falava se ficasse boa a primeira coisa que iria fazer era se batizar na Igreja Batista. Papai não gostava muito dos Evangélicos, quando falei isso pra ele, ele ficou irado e respondeu: prefiro que morra, mas isso foi na hora da raiva porque era católico do pé roxo. Um dia coloquei Paulinho na cama e mamãe começou a rir. Ela falou que estava feliz porque Paulinho estava moreno, quando ele nasceu era bem alvo tinha a cor do pai e mamãe não gostava queria que ele ficasse moreno. Dia 25 mamãe me chamou e me contou que havia sonhado com uma mão enorme no céu, a mão estava aberta e ela ficava olhado aquela mão parada, e perguntou se eu sabia decifrar esse sonho, eu falei que na minha opinião aquela mão estava mandando ela esperar algo, poderia ser sua cura, eu não sabia que ela tinha câncer. E mais uma vez corri para contar a papai na barraca e ele nem deu importância.
Dia 27 mamãe acorda e fala: Inajá! Hoje o sonho foi diferente. Vi um rosto do tamanho do céu. Um rosto lindo, de barba, cabelos cumpridos muito bonito, e agora minha filha? Não sei como lhe responder mamãe, a mão que a senhora viu era mandando a senhora esperar para ficar boa, ou então vê esse rosto... Não quis falar nada a papai para não deixá-lo mais irritado. Nessa época, Ilna já estava estudando em Rio Formoso em casa do Tio Mário irmão de mamãe, e eu não tinha com quem conversar, o pai Joca (meu avô pai de minha
mãe) era surdo eu teria que gritar para poder ele ouvir, fiquei calada. Dia 28 mamãe amanheceu boa. Levantou-se e me pediu para dar um banho nela. Achei muito estranho, há dias ela nem andava agora estava boazinha...foi aí que eu falei: mamãe, aquela mão era para a senhora ficar boa. Ela respondeu: que nada Inajá, hoje eu sonhei outra vez, talvez você pense que estou louca, mas chegou o dia da minha morte porque eu sonhei com a mão outra vez e dessa vez ela me chamava. Lágrimas se formaram em meus olhos, contudo pude conter em soluços dentro do meu coração para não chorar na frente dela, foi aí pela primeira vez que aprendi a chorar com o coração, sabia que iria perdê-la, ela era meu porto seguro, apesar de ter dado tanto desgosto, ela havia me perdoado e eu não queria que ela morresse porque ficaria só e iria sofrer com meu pai. Era um fardo muito pesado que estava carregando. Teria que tomar conta de um menino, de meu avô e de papai, de mamãe e eu tinha apenas nessa época 19 anos,
sem infância, sem juventude, uma responsabilidade muito grande que teria para continuar a vida em um interior onde tudo servia de comentários e todos sabiam a vida de cada um porque eram poucos habitantes. Mamãe estava feliz porque me pediu que aceitasse me casar com um rapaz, ela queria morrer e me deixar amparada, eu topei, mas me estrepei depois conto os detalhes para não misturar com a morte de minha mãe que foi tão linda. Dei um banho em minha mãe, ela com vergonha do corpo mutilado e ainda por cima nunca havia ficado nua na minha frente e daí começou a brincar comigo. Almoçou bem, conversou muito e me explicou tudo como queria que eu fizesse depois que ela morresse, muito embora eu já estivesse passada de tanto vê minha mãe morrer e tornar outra vez, não sei falar com certeza, creio que ela teve umas cinco paradas cardíacas onde eu saía correndo para a maternidade gritando que mamãe estava morrendo. Iraci uma boa enfermeira acordava de madrugada de camisola, colocava uma roupa por cima e vinha socorrer minha mãe, nunca fez cara feia nem se abusou, estava sempre pronta para servir a qualquer hora do dia ou da noite. Sim, antes que eu esqueça, falei para Papai o sonho de mamãe, daí, ele falou
tá doida tu e tua mãe, isso é doidice nem quero saber disso, isso é besteira ( papai tinha mania de chamar as pessoas de doida nunca gostei dessa palavra, ele não imagina o que seria uma pessoa louca, nunca viu porque se tivesse visto jamais falaria tal palavra). Quando foi lá pelas 17:00horas mamãe começou a me dar os detalhes do seu sepultamento.
__ Veja bem minha filha, eu vou morrer, sei que não passa desse mês, a minha mãe morreu dia 21, fulano dia tal, sicrano dia tal. Bem quando eu estiver dentro do caixão quero que você coloque um tule sobre o meu rosto para que não venha um levante o pano e diga: ficou do mesmo jeitinho, aí cobre. Daí vem outro: levanta o pano e fala: não mudou nadinha e cobre. Vem outro e fala: está parecendo uma santinha e assim por diante, então para evitar esse levanta e baixa é melhor o tule porque não precisa de ficar levantando e baixando, não esqueça também de colocar minha chapa (prótese) porque não quero morrer de boca murcha para não ficar com um nariz enorme e a boca lá pra dentro, ( era vaidosa) sem esquecer também de fechar meus olhos para que eles não fiquem abertos. Fiquei ouvindo atentamente o que ela falava. Pediu a sua Bíblia e falou: Esta é a única herança que tenho para lhe dar. Não se desespere. Sei que você irar sofrer muito depois que eu morrer, tenho que parar para chorar... Estou de volta. Continuando, ela falou que depois que ela morresse eu iria sofrer muito, porém nas horas dos seus aperreios, desesperos, angústias que eu entrasse no quarto pedisse inspiração a Deus, dai abriria qualquer parte, e Deus iria me fortalecer e não irá fraquejar. Eu falei: Mamãe parece que a senhora está se despedindo de mim, eu não gosto quando a senhora fala desse jeito. A Senhora não vai morrer, veja como a senhora amanhece boa! Ela só fez sorrir. A noite já passava das 22:00 horas quando mamãe piorou. Mais uma vez saí correndo atrás de Iraci. Nessa noite fui dormir mais de 2:00 horas da madrugada. Eu e papai. Mamãe cansada, eu abanava, abanava e ela sempre cansada, quanto sofrimento, nós éramos tão pobres que nem um ventilador tínhamos para refrescar minha mãe, quanto sofrimento. Não aguentei mais e papai me mandou dormir. Ele passou a noite em claro, quando eu acordei era umas 6:30 horas ou 7:00 não estou lembrada, Mamãe tinha dormido um pouquinho e papai ali do lado não tinha pregado os olhos coitado, estava de olheiras, papai sofreu muito vendo mamãe daquele jeito. Lá pelas 8:00 horas mamãe acordou. Perguntei se ela estava melhor. Falou que não passaria daquele dia: 29 de abril de 1975. Falava ela: estou pior. Venha cá, cante um hino. Deus onde fui buscar forças para cantar aquele hino que ela havia me pedido. Eu cantei em seguida ela me fez todas as recomendações. Chorei tudo que tinha de chorar. Ela estava bastante cansada mesmo assim cantou um hino e me pediu para terminar. Em seguida, fez uma prece linda a Deus, queria tanto ter um gravador para ter gravado tudo aquilo, mas a pobreza era grande, se eu tivesse gravado serviria de conforto para mim. Não sei meu Deus porque não sou de julgar ninguém, mas Deus deve ter olhado para mamãe naquele momento e ter ouvido suas preces e a colocou ao seu lado. Bem nesse momento ela piorou demais, engraçado se passaram 38 anos e eu recordo como se fosse hoje. Corri outra vez atrás de Iraci e trouxe o Dr. Abelardo. Ele falou que mamãe estava respirando por uma parte bem estreitinha do pulmão e quando fechasse ... daí aplicou uma injeção para ela dormir e papai perguntou se dava tempo de ir ao sítio enquanto ela dormia. O Dr. respondeu: O senhor pode ir à Recife à pé e voltar. Papai não entendeu nem eu também só sei que a porta foi fechada para que ninguém a incomodasse. Quando papai chegou do sítio falou: Você foi vê sua mãe? Não papai o médico avisou que não era para ninguém entrar no quanto para que ela não acordasse. Saiu papai para o quarto e escutei a voz dele apavorado gritando: Corre Inajá tua mãe está morrendo! Que nada papai o senhor está brincando, falei da cozinha. Ele falou corra Inajá venha logo, gritou ele. Quando entrei no quarto ele estava escuro porque a janela e porta estavam fechadas, olhei meu pai com a mamãe nos braços e ela procurava me falar algo porém não conseguia. Fiquei olhando para ela tentando descobrir o que ela queria, minha cabeça já estava tonta, era tanta coisa, uma confusão total, mas daí descobri... Deus meu Deus, é a chapa (prótese). Corri e fui buscar. Quando coloquei as duas peças ela ajeitou direitinho deu um sorriso... preciso chorar.... deu um sorriso muito fraco de satisfeita, foi aí que surgiu uma lágrima rolando na sua face. Silêncio, silêncio total, depois do desespero, a agonia, a angústia, papai começou a falar: Dos Anjos, você tá morrendo minha velha? Inajá me dá álcool para poder massagear o coração e braços. Olhei para mamãe e vi o sangue sumindo de sua mão... papai já havia passado álcool por todo corpo massageando, mas já não havia mais pulso, foram tantas coisas que esqueci de pedir a sua benção. Deitei mamãe na cama. O quarto fechado ela ainda com seus olhos abertos fechei-os mais ela abriu outra vez talvez eu havia me precipitado e fechei antes do tempo. Papai chorava sem consolo. Eu naquela hora me tornei dura, tentando consola-lo dizendo que ela tinha descansado.
TERÇA FEIRA 29 DE ABRIL DE 1975 ÁS 10:20 HORAS DEUS A LEVOU PARA O CÉU, MINHA MÃE QUERIDA, e eu fiquei órfã, só com meu pai, meu filho e meu avô. Hoje estamos no dia 11/04/2013 não vejo a hora desse mês passar porque não gosto dele, se minha mãe fosse viva estaria com 95 anos.
Melhor Professora principalmente na alfabetização, melhor costureira porque fazia vestidos de noivas a coisa mais linda do mundo, poeta, era no seu caderno que colocava todos os seus sonhos através de poesias e esse caderno despareceu de tal que não me restou uma poesia para republicar, mulher digna, honesta, as vezes exagerava um pouco com suas exigências de comportamento e não havia nada que abonasse sua conduta moral. Em Bom-jardim quem não conheceu DONA MARIA DOS ANJOS não conheceu Bom-jardim. E assim sepultei minha mãe no dia 30 de abril de 1975 contudo ela permanece no meu coração, e nas minhas horas de angústia pego a Bíblia ela me deu, faço um pedido a Deus e Ele me dá , daí me conforto e tudo volta ao normal. Essa Bíblia foi Nenca que deu a Mamãe quando comprou uma televisão stand elétrica e o proprietário presenteava cada cliente com Esse Livro. Ela foi do ano de 1966 as folhas já estão bem velhinhas de tanto ser folheadas e o último capítulo de Apocalipse foi arrancado por um idiota para me machucar.
OBS: Essa não é uma obra de ficção apenas um pedacinho de minha vida.






















