Lendo um livro escrito por Geraldo Leal no ano de 1991 encontrei algo que me chamou atenção.
O habeas-corpos do violão escrito pelo poeta Dr. Ronaldo Cunha Lima. Como sou poeta também e admiradora desses escritores também vou relatar mais ou menos o acontecimento. O violão foi preso porque estava perturbando a noite através de suas cordas e o Juiz fez uma proposta para o poeta, que soltaria o violão se ele fizesse uma petição em versos... Ele se dirigiu a máquina e escreveu:
" O instrumento do crime que se arrola
Neste processo de contravenção,
Não é faca, revólver nem pistola,
É, simplesmente, Doutor, um violão...
Um violão, Doutor, que em verdade
Não matou, nem feriu um cidadão,
Feriu, sim, a sensibilidade
De quem o ouviu vibrar na solidão!
O violão é sempre ternura,
Um instrumento de amor e de saudade,
O crime a ele nunca se mistura,
Inexiste entre ambos, afinidade!
O violão é próprio dos cantores,
Dos menestréis de alma enternecida,
Que cantam as mágoas que povoam a vida,
E sufocam as suas próprias dores!
O violão é música e é canção,
É sentimento, é vida, é alegria,
É pureza e néctar que extasia,
É a dor espiritual do coração!
Seu viver, como o nosso, é transitório,
Mas seu destino não se perpetua,
Ele nasceu para cantar na rua
E não para ser arquivo de Cartório!
Mande soltá-lo pelo amor da noite,
que se sente vazia em suas horas,
Pra que volte a sentir o temo açoite
De suas cordas leves e sonoras!
Libere o violão, Doutor Juiz,
Em nome de Justiça e do Direito,
É crime, porventura, o infeliz,
Cantar as mágoas que lhe enchem o peito?
Será crime, afinal, será pecado,
Será delito de tão via horrores
Perambular na rua o desgraçado
Derramando na praça suas dores?
É o apelo que aqui lhe dirigimos,
Na certeza do seu acolhimento,
Juntada desta aos autos nós pedimos,
E pedimos, também, DEFERIMENTO..."
O juiz, pra não ficar por baixo, deu no verso o seguinte despacho;
" Para que eu não carregue
Remorsos no coração,
Determino que entregue
A seu dono, o violão!"
OBS: Essa obra foi tirada do livro de Geraldo Leal, intitulado NOITE DE SAUDADE, pag. 40. que foi editado no dia 15 de Novembro de 1991 Recife, Pe.


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